Naus Portuguesas e Navegadores portugueses Credito D. João de Castro (1540), Public domain, via Wikimedia Commons

Naus Portuguesas: A Vida a Bordo dos Navegadores Portugueses

A vida a bordo das naus portuguesas nos séculos XV e XVI era uma aventura de grandes desafios, perigos e descobertas. Os navegadores portugueses foram os primeiros a explorar um mundo desconhecido, abrindo novas rotas comerciais e culturais com a Ásia, a África e a América. Mas como era o dia-a-dia desses navegadores portugueses que se lançavam ao mar em busca de riqueza e glória?

Tempo de leitura estimado: 8 minutes

As Caravelas e as Naus Portuguesas

A caravela e a nau foram dois tipos de navios usados pelos portugueses nas grandes navegações dos séculos XV e XVI.

A caravela era de porte médio, com velas triangulares (vela latina) que permitiam aproveitar melhor o vento.

Era ágil, rápida e fácil de manobrar.

Podia levar até 50 pessoas e tinha pouca capacidade de carga. Ideal para explorar as costas desconhecidas e enfrentar as correntes marítimas.

Caravela Vera Cruz no rio Tejo Credito Lopo Pizarro, CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons
Caravela Vera Cruz no rio Tejo Crédito: Lopo Pizarro via Wikimedia Commons

A nau tinha um porte maior, equipada com velas redondas, que exigiam ventos favoráveis. Por isso, era mais lenta, pesada e difícil de manobrar.

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Podia levar até 200 pessoas e tinha uma grande capacidade de carga. Era usada para viagens de longa distância e para transportar mercadorias e riquezas.

As caravelas e as naus portuguesas tinham também diferenças na sua estrutura. As caravelas não tinham os altos “castelos” da popa e proa das naus, isto é, áreas cobertas à frente e à ré. As naus tinham várias cobertas (conveses abaixo do convés principal) e três mastros.

As caravelas foram decisivas para a descoberta das várias rotas marítimas e para a consequente cartografia, presente no Planisfério Português.

A estratégia para a conquista do comércio, por via marítima, precisava de meios mais robustos para o transporte. Passou a ser a época das naus de madeira com dois, três ou quatro mastros.

As naus portuguesas podiam transportar carga até 500 toneladas. Foram desenvolvidas para navegar em mar alto, enfrentando as tempestades, as correntes e os ventos do Atlântico e do Índico.

Réplica de uma das Naus Portuguesas, a Santa Maria, de Cristóvão Colombo em 1492; Crédito Dietrich Bartel via Wikimedia Commons
Réplica de uma das Naus Portuguesas, a Santa Maria, de Cristóvão Colombo em 1492; Crédito Dietrich Bartel via Wikimedia Commons

Tinham castelos de proa e de popa, onde ficavam os oficiais e os nobres e um porão onde se amontoavam os marinheiros, os soldados, as cargas e os animais.

Também existiam as Carracas portuguesas que eram navios de carga e de guerra empregues no final do século XV e no século XVI.

Estas naus, desde o período das primeiras naus oceânicas como a Santa Maria, foram alvo em pouco tempo de um enorme desenvolvimento e inovação no seu design e tamanhos, devido ao confronto armado no Oceano Índico, à grande carga e às longas distâncias percorridas.

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Carracas um dos tipos de naus portuguesas; Crédito: Royal Museums Greenwich via Wikimedia Commons
Carracas um dos tipos de naus portuguesas; Crédito: Royal Museums Greenwich via Wikimedia Commons

Tripulação

A tripulação era composta por diferentes tipos de pessoas: o capitão, que comandava o navio; os pilotos, que orientavam a navegação; os mestres, que supervisionavam as manobras; os contramestres, que auxiliavam os mestres; os marinheiros, que executavam as ordens; os grumetes, que eram aprendizes de marinheiro; os bombardeiros, que manejavam as armas de fogo; os soldados, que defendiam o navio dos ataques; os religiosos, que cuidavam da parte espiritual; o escrivão, que registava tudo o que acontecia; o médico, que tratava dos doentes; o barbeiro, que cortava o cabelo e fazia sangrias; o carpinteiro, que reparava os danos no navio; o calafate, que vedava as frestas da madeira; o cozinheiro, que preparava as refeições; e, ainda, outros oficiais menores.

Todos eles eram parte integrante dos navegadores portugueses em busca de glória.

Os Perigos

Os perigos que os tripulantes enfrentavam eram muitos e imprevisíveis. Os naufrágios eram frequentes, causados por tempestades, correntes, rochedos ou fogo a bordo.

Muitos naus portuguesas perdiam-se, ficando à mercê dos mares e oceanos ou dos inimigos.

Os ataques piratas eram uma ameaça constante, especialmente de árabes, turcos e holandeses, que disputavam o domínio das rotas comerciais com os portugueses.

Os confrontos com os nativos das terras visitadas também podiam ser fatais para os tripulantes. Alguns povos eram pacíficos e recetivos aos portugueses, mas outros eram hostis e violentos.

Os tripulantes tinham que estar preparados para lutar ou fugir, dependendo da situação. Alguns eram capturados e escravizados ou mortos pelos nativos.

A Alimentação

A alimentação dos tripulantes era muito precária e insuficiente.

Recebiam diariamente cerca de 400 gramas de biscoito duro e salgado, que muitas vezes estava bolorento ou infestado de ratos e baratas.

Recebiam também duas pequenas doses de água e vinho, que eram armazenadas em condições más e causavam infeções e diarreias.

A cada mês tinham direito a 15 kg de carne salgada, cebola, vinagre e azeite.

Os capitães e os oficiais podiam levar outros alimentos, como açúcar, mel, farinha e frutas. Podiam, ainda, transportar galinhas e ovelhas para completar a sua alimentação, enquanto os tripulantes comuns tinham que se contentar com carne salgada e biscoito.

Os animais eram guardados nos porões dos navios, junto com as cargas e os marinheiros.

Cada tripulante cozinhava para si mesmo, mas nem sempre havia lume disponível e, por isso, a fome era um problema continuado.

O Entretenimento

O entretenimento dos navegadores portugueses era escasso e limitado. Alguns marinheiros gostavam de jogar às cartas, o que era proibido. Se fossem apanhados em flagrante por algum frei, os baralhos eram confiscados e atirados ao mar.

Outra forma de diversão eram as apresentações de teatro, sempre com temas religiosos. Os tripulantes encenavam histórias bíblicas ou de santos, usando roupas e adereços improvisados.

Também havia momentos de música e dança, especialmente nas festas religiosas ou nas datas comemorativas.

Os marinheiros tocavam instrumentos como viola, tambor ou flauta e cantavam cantigas populares ou de louvor a Deus.

Nas paragens em terra firme, os tripulantes aproveitavam para conhecer as culturas locais, trocar mercadorias e desfrutar dos prazeres da vida.

Naus Portuguesas A Vida a Bordo dos Navegadores Portugueses Imagem nCultura
Naus Portuguesas; A Vida a Bordo dos Navegadores Portugueses; Imagem: IPEC

A Saúde

As doenças nas naus portuguesas eram causa comum de morte entre os tripulantes. A falta de higiene, a má alimentação e o confinamento, favoreciam a propagação de infeções, diarreias, escorbuto, sífilis e outras enfermidades.

A bordo havia um médico e um barbeiro, mas os seus recursos eram limitados e muitas vezes ineficazes.

Os tripulantes doentes eram isolados numa enfermaria improvisada no porão ou no castelo da popa.

A doença mais comum e que matava mais homens era o escorbuto, causada pela falta de vitamina C no organismo. As gengivas sangravam, os dentes caiam, além de hemorragias internas.

Outras doenças frequentes eram: disenteria, tifo, malária, sífilis e escabiose.

As Recompensas

As recompensas que os tripulantes recebiam pelas suas viagens eram variadas e incertas.

Alguns recebiam um salário fixo, outros recebiam uma parte dos lucros da venda de mercadorias, outros recebiam apenas a comida e a roupa.

Alguns recebiam honras e títulos, outros recebiam perdão pelos seus crimes.

Alguns recebiam fama e glória, outros recebiam o esquecimento e a indiferença.

Estima-se que cerca de um terço das naus portuguesas se perdiam no mar ou eram capturadas por inimigos.

Mas todos recebiam a oportunidade de conhecer novos mundos, novas culturas, novas paisagens, novas riquezas.

E todos tinham a oportunidade única de fazer parte da história de Portugal e da Humanidade.

Nau que pertenceu às armadas de Vasco da Gama (1502), D. Francisco de Almeida (1505) e Afonso de Albuquerque (1510). Tomou parte na conquista de Ormuz (1507). Imagem Marinha Portuguesa
Nau que pertenceu às armadas de Vasco da Gama (1502), D. Francisco de Almeida (1505) e Afonso de Albuquerque (1510); Tomou parte na conquista de Ormuz (1507); Imagem: Marinha Portuguesa

A Chegada ao Japão

A chegada dos navegadores portugueses ao Japão ocorreu em 1543.

Os japoneses ficaram impressionados com as armas de fogo que os portugueses levavam e chamaram-lhes “tanegashima”, o nome da ilha a sul do Japão, onde desembarcaram.

Os portugueses, por sua vez, ficaram fascinados com a cultura e a arte japonesas, e levaram consigo muitos objetos, como porcelanas, leques e biombos.

O intercâmbio cultural entre os dois povos foi intenso e durou cerca de um século, até que o Japão se fechou ao mundo exterior.

Também, já antes, a chegada ao Brasil em 1500, e que ficou registada na carta de Pero Vaz de Caminha, foi assinalada com a troca de presentes entre os marinheiros e os nativos da designada Terra de Vera Cruz.

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