Carlos I e Catarina de Bragança

Catarina de Bragança, Rainha do Chá

D. Catarina de Bragança nasceu em 1638 no Paço Ducal de Vila Viçosa e era a segunda filha de D. João IV de Portugal e D. Luísa de Gusmão.

Tempo de leitura: 10 minutes

Quem foi Catarina de Bragança

Desde cedo, a sua vida foi marcada por acontecimentos históricos relevantes, em particular a aclamação de seu pai como rei após a Guerra da Restauração Portuguesa em 1640.

Catarina cresceu num ambiente de amor e proteção, especialmente sob a supervisão de sua mãe, muito dedicada à educação dos filhos.

Acredita-se que Catarina de Bragança passou grande parte de sua juventude no Convento Real das Chagas de Cristo, mandado construir por D. Jaime, IV Duque de Bragança, no século XVI e ao lado do Paço Ducal, sendo atualmente a Pousada do Convento de Vila Viçosa.

Foi aí que recebeu a educação religiosa que, no entanto, limitou o seu conhecimento de línguas não ibéricas, fazendo com que tivesse de conversar com o marido, o rei D. Carlos II, em castelhano.

Fig 1 Paço Ducal de Vila Viçosa - Portugal; Crédito Vitor Oliveira, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons
Fig 1 Paço Ducal de Vila Viçosa – Portugal; Crédito: Vitor Oliveira, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

O casamento de D. Catarina de Bragança com o Rei D. Carlos II de Inglaterra, Escócia e Irlanda em 1662, não foi apenas uma união política, mas também, um choque cultural e religioso, já que ela era católica numa Inglaterra predominantemente protestante.

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Fig. 2 Casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra, Crédito Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Fig. 2 Casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra, Crédito: Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Retoque IA)

O seu catolicismo foi por isso um tema de grande controvérsia e impediu mesmo a sua coroação.

A vida de Catarina na corte inglesa foi desafiadora. Enfrentou a dificuldade de não conseguir ter herdeiros, após ter sofrido três abortos, enquanto o seu marido continuava a ter filhos com as suas amantes.

Apesar disso, Carlos II insistia para que Catarina fosse tratada com respeito e recusou o divórcio, mesmo sob uma forte pressão política para que o fizesse.

Fig. 3 Catarine de Bragança Crédito Royal Collection, Peter Lely, Public domain via Wikimedia Commons
Fig. 3 Catarine de Bragança Crédito Royal Collection, Crédito: Peter Lely, Public domain via Wikimedia Commons

A vida pessoal de Catarina de Bragança foi marcada pela sua resiliência e capacidade de adaptação a um novo país e cultura, mantendo ao mesmo tempo as suas tradições e religiosidade.

A sua contribuição para a cultura inglesa é frequentemente lembrada, mas história pessoal revela uma mulher de coragem que enfrentou adversidades com dignidade e elegância.

A Rainha do Chá

A Rainha do Chá, uma figura emblemática na história da cultura europeia, foi Catarina de Bragança, a Infanta de Portugal que se tornou rainha consorte ao casar-se com o Rei D. Carlos II.

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Catarina introduziu o costume do chá em Inglaterra, um hábito que levou de Portugal, onde já era uma bebida popular entre a aristocracia, devido às rotas comerciais estabelecidas por Portugal, com a China através de Macau.

Mas a sua influência estendeu-se para além da introdução e da própria prática de beber chá como um evento social, em vez de ser considerado apenas como um remédio, pois também popularizou o uso de porcelanas finas, dos talheres.

Fig. 4 The History of Afternoon Tea; Crédito Aimee Provence
Fig. 4 The History of Afternoon Tea; Crédito: Aimee Provence (Retoque IA)

Catarina chegou à corte inglesa com um dote impressionante, que incluía também as folhas de chá que rapidamente se tornaram na bebida da moda entre a nobreza.

Uma ideia curiosa sugere que as iniciais das palavras “Transporte de Ervas Aromáticas” poderia estar na origem da palavra inglesa “tea”.

Na corte, D. Catarina de Bragança era uma figura relevante e as suas preferências rapidamente se tornaram tendências.

Influenciou os hábitos alimentares, mas também a moda e as artes.

Por exemplo, é-lhe atribuída a introdução dos leques, que se tornaram acessórios indispensáveis para as damas da época.

Além disso, a rainha consorte levou consigo uma orquestra de instrumentistas portugueses, enriquecendo a vida cultural da corte com música e danças da sua terra natal.

Foi Catarina que introduziu o queque, um bolo com uma espécie de coroa a toda a volta, que se tornou popular, também, em Inglaterra.

Sendo uma apaixonada pela ópera italiana promoveu igualmente a sua introdução na corte inglesa.

A rainha portuguesa é lembrada, ainda, por ter popularizado o uso de compotas, incluindo a marmelada, e por ter introduzido o mobiliário indo-português, que era muito apreciado pela sua exótica beleza.

A história de Catarina de Bragança é um testemunho fascinante da troca cultural entre Portugal e Inglaterra e do papel significativo e duradouro que uma rainha pode desempenhar na introdução de novos costumes numa nação.

A relação com a sogra, D. Henriqueta Maria de França

A relação de Catarina de Bragança com a sua sogra, D. Henriqueta Maria de França, é um aspeto menos documentado na história, mas pode-se inferir que era uma relação complexa, marcada pelo contexto político e religioso da época.

Henriqueta Maria, sendo católica como Catarina, poderia ter sido uma aliada na corte inglesa predominantemente protestante.

No entanto, Henriqueta Maria faleceu em 1669, apenas sete anos após a chegada de Catarina à Inglaterra, o que limitou o tempo em que ambas poderiam ter desenvolvido uma relação significativa.

Henriqueta Maria, é mãe de D. Carlos II, era uma figura de grande influência e poder, tendo sido a esposa do Rei D. Carlos I (pai de Carlos II) e vivenciando com ele os tumultos da Guerra Civil Inglesa entre 1642 e 1651.

Por isso, ao chegar a Inglaterra, Catarina de Bragança encontrou uma corte que ainda recuperava dos efeitos desta guerra civil entre o rei Carlos I, pai de Carlos II (marido de Catarina de Bragança), que defendia uma monarquia absolutista e os defensores de uma república constitucionalista, liderados por Oliver Cromwell.

Fig. 5 Henriqueta Maria e Carlos I Fonte Anthony van Dyck, Public domain, via Wikimedia Commons
Fig. 5 Henriqueta Maria e Carlos I Crédito: Anthony van Dyck, Public domain, via Wikimedia Commons (Retoque IA)

A guerra terminou com a vitória dos Parlamentares, a execução de Carlos I (pai de Carlos II) e a instauração de uma república.

No entanto, em 1660, a monarquia foi restaurada com Carlos II, o “rei da alegria”, no trono.

Henriqueta, católica, teve de lidar com a hostilidade contra os católicos e enfrentou desafios significativos após a execução de seu marido, o Rei D. Carlos I.

Essas experiências poderiam ter criado um terreno comum e compreensão mútua entre ela e a nora. Além disso, Henriqueta Maria era conhecida pelo seu mecenato das artes e por manter uma corte sofisticada, o que poderia ajudar Catarina de Bragança a evidenciar os seus próprios interesses culturais e artísticos.

Contudo, a influência de Henriqueta Maria na corte estava já em declínio na época do casamento de Catarina com Carlos II e, a sua morte em 1669 significou que qualquer influência direta sobre Catarina foi limitada ao início do seu reinado, como rainha consorte que se lhe seguiu.

Apesar disso, é possível que as contribuições culturais de Henriqueta Maria, como o mecenato das artes, tenham permitido que Catarina os continuasse e expandisse, especialmente considerando o hábito do chá e a promoção da ópera italiana na corte inglesa.

Ambas navegaram numa corte inglesa em transição difícil e deixaram as suas marcas na cultura e na sociedade inglesas de “boas maneiras” que ainda hoje são lembradas.

Em resumo, embora os detalhes específicos da relação entre Catarina de Bragança e Henriqueta Maria de França sejam escassos, é provável ter havido uma afinidade e respeito pelos mútuos desafios que compartilhavam.

A relação de Catarina com o Marido, D. Carlos II

A relação entre Catarina de Bragança e o Rei D. Carlos II de Inglaterra era complexa e multifacetada, o casamento fora arranjado principalmente por razões políticas, com Catarina levando um dote avultado, que incluía os territórios de Bombaim e Tânger, assim entregues à  Corte Britânica.

Fig. 6 Carlos II de Inglaterra e D. Catarina de Bragança na Old Somerset House; Crédito English School, Século 17, Public domain, via Wikimedia Commons (retoque de IA)
Fig. 6 Carlos II de Inglaterra e D. Catarina de Bragança na Old Somerset House; Crédito: English School, Século 17, Public domain, via Wikimedia Commons (retoque IA)

Apesar das dificuldades inerentes a um casamento de conveniência, especialmente num país estrangeiro e de fé diferente, Carlos II demonstrou consideração e respeito por Catarina ao longo de seu reinado.

A relação do casal foi afetada pela Conspiração Papista, uma suposta conspiração para assassinar Carlos II e substituí-lo por um monarca católico, que exacerbou as suspeitas os católicos na Inglaterra, incluindo a própria Catarina.

Apesar dessas circunstâncias, Carlos II permaneceu ao lado da esposa, protegendo-a das acusações e garantindo a sua posição na corte.

A Conspiração Papista foi um suposto plano que surgiu em Londres em 1678, com o objetivo de matar o Rei D. Carlos II. Os conspiradores acusados eram os católicos da nação, particularmente os da Ordem dos Jesuítas. O suposto plano era matar o rei e instalar o seu irmão católico, Jaime, no trono.

O termo “papista” é neste caso depreciativo e criado pelos protestantes ingleses para categorizar os católicos romanos. Foi usado como referência à soberania do Papa sobre os cristãos e para humilhar aqueles que respeitavam essa ascendência.

O Regresso de Catarina de Bragança

Após a morte de Carlos II em 1685, Catarina permaneceu em Inglaterra por mais sete anos, durante o reinado de seu cunhado Jaime II.

Sendo Jaime II católico, terá proporcionado um ambiente um pouco mais acolhedor a Catarina de Bragança.

Regressou a Portugal, após a Revolução Gloriosa de 1688 que definitivamente acabou com o absolutismo, afastou os católicos da vida pública e consolidou a Igreja Anglicana.

Catarina foi viver para o Palácio da Bemposta em Lisboa e durante a viuvez, manteve um estatuto peculiar de Rainha viúva e chegou a exercer a regência de Portugal, em dois curtos períodos, mostrando a sua capacidade de liderança e influência política.

Fig 7 Palácio da Bemposta, em Arroios, Lisboa Credito Gualdim G, CC BY-SA 4.0 via Wikimedia Commons
Fig 7 Palácio da Bemposta, em Arroios, Lisboa; Crédito: Gualdim G, CC BY-SA 4.0 via Wikimedia Commons

Embora o casamento de Catarina e Carlos II não tenha sido marcado pela paixão romântica típica dos contos de fadas, parece ter havido uma base de respeito e lealdade.

Fig. 8 Estátua de Catarina de Bragança, Parque das Nações, Lisboa; Crédito Public Domain via Wikimedia Commons (Retoque IA)
Fig. 8 Estátua de Catarina de Bragança, Parque das Nações, Lisboa; Crédito: Public Domain via Wikimedia Commons (Retoque IA)

Carlos II valorizava a dignidade e o estatuto de Catarina como sua rainha consorte, e ela, por sua vez, desempenhou o seu papel na corte com delicadeza e dignidade, apesar dos desafios que enfrentou.

A relação entre eles reflete a complexidade dos casamentos reais da época, onde a política e o dever muitas vezes superavam as considerações pessoais.

Catarina de Bragança faleceu em 1705, deixando um legado de influência cultural e política que transcendeu as fronteiras de seu país natal.

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