Modelos de Capitalismo

Capitalismo, Evolução, Características e Críticas

Vamos abordar os vários modelos de capitalismo existentes e a sua evolução histórica. As principais críticas ao sistema capitalista, as contradições que evidencia, as injustiças e os desafios que enfrenta. Finalmente quais as soluções propostas pelos críticos do capitalismo, tendo em vista construir uma sociedade mais justa, solidária e sustentável.

Tempo de leitura: 13 minutes

Início do Capitalismo

“Capitalismo” é o termo que foi utilizado por Karl Marx num dos seus trabalhos mais famosos, o “Manifesto Comunista” de 1848.

É um sistema económico baseado na propriedade privada dos meios de produção e sua exploração para obtenção de lucro.

O capitalismo surgiu na Europa entre os séculos XV e XVIII, com a crise do feudalismo a partir do século XI e do desenvolvimento do mercantilismo, que carecia da expansão do comércio mundial e do aumento dos lucros, bem como da deslocação das pessoas das zonas rurais para as cidades.

O período dos Descobrimentos teve o seu início na estratégia portuguesa para conquistar o comércio das especiarias, controlado pelos povos árabes que detinham o monopólio da rota Mediterrânica e com o centro do comércio europeu em Veneza.

Foi neste período que se desenvolveu o comércio internacional, sobretudo utilizando a via marítima para transacionar mercadorias entre os vários continentes.

O capitalismo veio a consolidar-se com a revolução industrial no século XVIII.

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Desde então, o capitalismo passou por diversas transformações e crises, dando origem a diferentes modelos, com as suas características e desafios próprios.

História da evolução do Capitalismo

O sistema capitalista teve um longo processo histórico que envolveu transformações tecnológicas, sociais, culturais e políticas.

Podemos dividir a história da evolução do capitalismo em três fases principais:

– Capitalismo comercial ou mercantil, que foi a fase inicial e que se estendeu do século XV ao século XVIII. Nessa fase, o comércio internacional foi o principal motor da economia, impulsionado pelas grandes navegações e pela expansão colonial portuguesa e europeia. A acumulação de riquezas inicia-se com o comércio das especiarias provenientes da Índia e passa a ser baseada na exploração dos metais preciosos das colónias e no estabelecimento de monopólios comerciais. O Estado absolutista e monárquico apoiava os interesses da burguesia mercantil e praticava o mercantilismo, uma política económica que visava aumentar o poder e a riqueza da nação (ou da nobreza e do clero). A primeira moeda global no mundo foi a portuguesa e designada “O Português”.

– Capitalismo industrial ou industrialismo, foi a etapa de consolidação do capitalismo que se desenvolveu nos séculos XVIII e XIX. Nessa fase, a indústria substituiu o comércio como a atividade económica dominante, graças à Revolução Industrial que introduziu novas máquinas, fontes de energia e meios de transporte. A produção em larga escala e a divisão do trabalho aumentaram a produtividade e, em consequência, o lucro dos empresários. O liberalismo económico defendia a livre iniciativa e a livre concorrência como formas de garantir o progresso e a prosperidade. O proletariado surgiu como uma nova classe social, formada pelos trabalhadores assalariados das fábricas.

– Capitalismo financeiro ou monopolista que é a fase atual do capitalismo, iniciada no século XX e até aos dias de hoje. Nessa fase, o capital financeiro representado pelos bancos, pelas bolsas de valores e pelos fundos financeiros, passou a dominar a economia, determinando o ritmo e a direção dos investimentos produtivos. O capitalismo tornou-se globalizado com a integração dos mercados e a formação de blocos económicos. As grandes empresas multinacionais adquiriram um poder económico e político superior ao dos Estados nacionais. O neoliberalismo surgiu, assim, como uma doutrina que defendia a redução do papel do Estado na economia e a privatização das empresas estatais.

Nesta evolução há duas vertentes que foram tendo maior ou menor relevância, dependendo do poder relativo dos “Shareholders” e os “Stakeholders”.

No ambiente empresarial designam-se os acionistas, os detentores do capital ou das ações das empresas como “shareholders”.

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Os restantes atores, os “stakeholders”, incluem os clientes, fornecedores, trabalhadores e as autoridades, quer sejam governamentais, autárquicas, de supervisão ou de regulação.

São os modelos “Shareholder Capitalism” e o “Stakeholder Capitalism”.

O modelo defendido por Milton Friedman, um modelo neoliberal, é o “Shareholder Capitalism” que dá assim a primazia ao acionista, ou seja, ao capital, tradicionalmente seguido pelo Reino Unido e Estados Unidos da América.

Após a crise económica e financeira de 2007-2008 este modelo de capitalismo ficou em causa e começou a pensar-se mais na lógica do capitalismo cooperativo, no qual os stakeholders têm uma palavra a dizer e são parte integrante do sistema. Capitalismo Cooperativo é típico das grandes economias europeias, como a Alemanha e a França e da herança social-democrata dos países nórdicos, que beneficiaram do contributo de Olof Palme.

O Manifesto de Davos, lançado pelo Fórum Económico Mundial em 2020 e cujas orientações são seguidas por muitos líderes empresariais, defende que as empresas devem ser geridas tendo em conta não só o interesse da comunidade, mas também dos stakeholders.

No Capitalismo dos Acionistas (os donos do capital) as empresas existem para gerar lucro e com isso maximizar o valor para os acionistas.

Características do Capitalismo

O capitalismo é um sistema complexo e dinâmico, que apresenta diversas características ao longo da sua história. No entanto, há algumas características comuns a todas as fases e modelos do capitalismo.

– Propriedade privada é o direito que os indivíduos ou as empresas têm de possuir os meios de produção, como terras, máquinas, fábricas, etc. A propriedade privada é considerada um incentivo para o investimento, a inovação e o empreendedorismo.

– Lucro é o objetivo principal do capitalismo, que consiste na diferença entre o valor da produção e o custo da produção. O lucro é a fonte de rendimento dos capitalistas, que procuram maximizá-lo através da exploração da força de trabalho, da redução dos custos e da ampliação dos mercados.

– Mercado é o espaço onde ocorre a troca de bens e serviços entre os agentes económicos. O mercado é regulado pela lei da oferta e da procura, que determina os preços dos produtos, no qual os consumidores expressam as suas preferências e os produtores oferecem as suas mercadorias.

– Concorrência é a disputa entre os produtores pelo mercado consumidor. A concorrência estimula a procura da qualidade, pela eficiência e pela inovação. No entanto, a concorrência também pode levar à formação de monopólios ou oligopólios, que são situações em que poucas empresas controlam um determinado setor da economia.

– Trabalho assalariado é a forma de relação entre os capitalistas e os trabalhadores. Os trabalhadores vendem a sua força de trabalho em troca de um salário, que é determinado pelo mercado de trabalho. Os trabalhadores não têm controlo sobre os meios de produção, nem sobre o produto do seu trabalho.

Modelos de Capitalismo

Existem diversos modelos de capitalismo no Mundo, que variam de acordo com o grau de intervenção do Estado na economia, o nível de desenvolvimento dos países, a distribuição da riqueza produzida e as relações sociais. Alguns dos principais modelos de capitalismo são:

– Capitalismo Liberal, tipificado pela expressão de “laissez-faire, laisser passer” do Marquês de Argenson, datada de 1751 e caracterizado pela mínima intervenção do Estado na economia e pela predominância do mercado, como regulador das relações económicas. Foi o modelo dominante no século XIX e início do século XX, mas entrou em crise com a Grande Depressão de 1929.

– Capitalismo Intervencionista, de bem-estar social ou Capitalismo Social, caracterizado pela maior participação do Estado na economia, para conciliar o crescimento económico com a justiça social, através da tributação e políticas públicas de regulação dos mercados, oferecendo serviços públicos, promovendo políticas de bem-estar social e infraestruturas. Nesse modelo, o Estado tem um papel mais ativo na economia. Foi o modelo adotado por muitos países ocidentais após a Segunda Guerra Mundial, inspirado nas ideias de John Maynard Keynes. Os países nórdicos, como a Suécia, Dinamarca e Noruega adotaram este modelo

– Capitalismo Neoliberal, caracterizado pela retoma dos princípios do liberalismo económico, com a redução do papel do Estado na economia e a defesa da privatização, da desregulamentação, da abertura comercial e da globalização. Foi o modelo hegemónico a partir da década de 1980, influenciado pelo Consenso de Washington e pelas políticas de Margaret Thatcher e Ronald Reagan. É o modelo mais próximo do ideal capitalista clássico, que defende a mínima interferência do Estado na economia e a livre concorrência entre as empresas. Nesse modelo, o mercado regula-se pela lei da oferta e da procura e o Estado limita-se a garantir a segurança, a justiça e os direitos individuais. São exemplo de países que adotaram este modelo os Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. A “Riqueza das Nações”, é a obra mais importante de Adam Smith, considerado o pai do liberalismo económico. O modelo teve, no entanto, consequências negativas como o aumento do desemprego, inflação, taxas de juro crescentes e desigualdades sociais.

– Capitalismo Financeiro, caracterizado pela crescente importância do setor financeiro na economia, com a expansão dos mercados de capitais, das instituições bancárias, das operações especulativas e das crises financeiras. Foi o modelo que se desenvolveu a partir da década de 1970, com a desvinculação do dólar ao padrão-ouro e a liberalização dos fluxos financeiros internacionais.

-Capitalismo de Estado, um dos modelos de capitalismo que decorre do desmembramento da União Soviética é o chamado capitalismo de Estado ou autoritário, que se caracteriza pela forte presença do Estado na economia, tanto como proprietário quanto como regulador dos principais setores produtivos. O Estado controla os setores estratégicos da economia, como a energia, telecomunicações e transportes e atua como um grande empresário. Nesse modelo, o Estado pretende garantir o desenvolvimento e a soberania do país, mas também enfrenta problemas de corrupção, burocracia e ineficiência. A China e a Rússia adotaram este modelo de capitalismo.

– Capitalismo Cognitivo, caracterizado pela emergência da economia do conhecimento, baseada na produção e circulação de informações, dados, conhecimento e inovações tecnológicas. Foi o modelo que se intensificou no século XXI, com o avanço das tecnologias digitais, da internet, da biotecnologia e da inteligência artificial.

Críticas ao Capitalismo

O capitalismo tem sido alvo de diversas críticas ao longo da história, provenientes de diferentes perspetivas teóricas, políticas e éticas. Algumas das principais críticas são:

– Crítica Marxista, a crítica mais antiga e influente ao capitalismo, formulada por Karl Marx (“O Capital” é a sua maior obra) e seus seguidores. Esta crítica baseia-se no materialismo histórico e na teoria da mais-valia, que denunciam a exploração do trabalho pelo capital e as contradições internas do sistema capitalista, que geram crises periódicas e alienação social. A crítica marxista propõe o fim do capitalismo, através de uma revolução proletária que instaure uma sociedade sem classes e sem propriedade privada.

– Crítica Ambiental, uma crítica mais recente ao capitalismo, que surgiu no contexto da consciência ambiental e ecológica. Esta crítica aponta os danos causados pelo capitalismo ao meio ambiente, como a poluição, o aquecimento global e a crise climática, a desflorestação e a perda da biodiversidade. A crítica ambiental defende a necessidade de uma mudança no modelo de desenvolvimento económico, que seja sustentável e respeite os limites dos recursos naturais. Empresas industriais, que após lucrarem durante anos quando terminam a operação deixam as instalações em estado degradado e poluído, tendo o Estado de arcar com a responsabilidade e os custos da eventual recuperação.

– Crítica Social, uma crítica que aborda os aspetos sociais do capitalismo, como a desigualdade, a pobreza, a exclusão e a violência. Esta crítica questiona a distribuição injusta da riqueza produzida pelo sistema capitalista, que beneficia uma minoria privilegiada em detrimento da maioria empobrecida. A crítica social também critica os valores individualistas e consumistas promovidos pelo capitalismo, que geram não só desperdício material e económico, como também o egoísmo, a competição desmedida e insatisfação.

– Crítica Feminista, uma crítica que analisa o papel das mulheres no sistema capitalista, que as oprime e as explora de diversas formas. Nancy Fraser, filósofa norte americana, denuncia a divisão sexual do trabalho, que relega as mulheres às tarefas domésticas e reprodutivas, sem reconhecimento nem remuneração. Ela também critica a tendência do feminismo atual que privilegia comportamentos individualistas, incentivando as mulheres a desenvolverem as suas carreiras e o empreendedorismo, em vez de procurarem a solidariedade social. A crítica feminista denuncia a violência de género, fruto da dominação patriarcal sustentada pelo capitalismo e regredindo à época medieval.

– Crítica Cultural, uma crítica que examina os efeitos do capitalismo sobre a cultura e a identidade dos povos. Esta crítica revela como o capitalismo impõe uma cultura homogénea e alienante, baseada no consumo e na mercantilização de tudo. A crítica cultural revela, igualmente, como o capitalismo destrói as culturas locais e tradicionais, que representam formas de resistência, de diversidade e de identificação nacional.

Infográfico Evolução Capitalismo
Infográfico Evolução Capitalismo

Alternativas ao Capitalismo

Perante as várias críticas ao capitalismo foram surgindo diversas propostas de mudança.

– Comunismo, a proposta mais conhecida e difundida de alternativa ao capitalismo, que consiste em um sistema económico baseado na propriedade coletiva dos meios de produção, na planificação central da economia e na distribuição equitativa da riqueza. É a proposta que vem de Karl Marx e que foi implementada na União Soviética, a seguir à revolução proletária de 1917, em que a defesa dos trabalhadores impôs uma autocracia. Assim nasceu o regime autocrático soviético.

– Anarquismo, outra proposta de alternativa ao capitalismo, que consiste numa filosofia política baseada na rejeição de toda forma de autoridade, de hierarquia e de Estado. O anarquismo defende a autogestão dos trabalhadores, a cooperação voluntária e a organização federativa da sociedade. O anarquismo também tem diversas vertentes e experiências históricas, que vão desde o anarco-sindicalismo até o anarco-feminismo.

– Economia Solidária (ou socialista e democrática) uma proposta mais recente e emergente de alternativa ao capitalismo, que consiste em um conjunto de práticas económicas baseadas na solidariedade, na participação e na democracia. A economia solidária engloba diversas formas de produção, de consumo e de finanças populares, que visam atender às necessidades humanas e não unicamente ao lucro. A economia solidária também promove a educação, a saúde, a cidadania ativa e a sustentabilidade ambiental.

Qual a relação entre o Capitalismo e a Democracia?

A relação entre o capitalismo e a democracia é complexa e controversa.

Por um lado, o capitalismo é um sistema económico baseado na propriedade privada dos meios de produção, na livre iniciativa, na livre concorrência e na procura do lucro. Por outro lado, a democracia é um sistema político baseado na soberania popular, na participação dos cidadãos, na igualdade de direitos e na garantia das liberdades individuais.

Em princípio, o capitalismo e a democracia poderiam ser compatíveis, pois ambos valorizam a autonomia individual, a liberdade de escolha e a diversidade de opiniões.

No entanto, na prática, o capitalismo e a democracia entram em conflito, pois o primeiro gera desigualdades sociais, económicas e políticas que comprometem a segunda.

O sistema capitalista tende a concentrar a riqueza e o poder nas mãos de uma minoria que domina o mercado e influencia o Estado, enquanto a democracia pressupõe a distribuição da riqueza e do poder entre a maioria que forma o povo.

Assim, o capitalismo e a democracia enfrentam uma luta entre os mais ricos e a população trabalhadora.

A burguesia rica tende a defender os seus privilégios e limitar a democracia aos seus aspetos formais, como as eleições periódicas e os direitos civis.

As classes populares querem ampliar a democracia aos aspetos substantivos, como os direitos sociais, económicos e culturais.

É um conflito similar ao que originou a revolução Marxista-Leninista.

Ao longo da história, o capitalismo e a democracia passaram por diversas fases e modelos que refletiram essa tensão.

O capitalismo liberal do século XIX conviveu com uma democracia restrita aos proprietários. O capitalismo intervencionista do século XX conviveu com uma democracia ampliada a todos.

O capitalismo neoliberal do final do século XX e início do século XXI conviveu com uma democracia enfraquecida pela globalização, pela financeirização e pela corrupção.

Hoje o capitalismo e a democracia enfrentam novos desafios e crises que colocam em questão a sua sustentabilidade e legitimidade.

Alguns defendem a reforma do capitalismo e da democracia para poderem ser mais justos, inclusivos e participativos.

Outros defendem que se devem construir novas formas de organização económica e política que sejam mais solidárias, cooperativas e emancipatórias.

Qual a evolução que se pode esperar do Capitalismo

O caminho a percorrer vai depender de todos nós. Por um lado, há um aumento da intervenção do Estado na regulação do processo e estabilidade económica, mas por outro há uma crescente interdependência da investigação tecnológica que determina que a ciência se possa tornar na principal força produtiva.

A automação da indústria, agricultura e transportes, bem como a inteligência artificial podem levar a uma maior concentração de riqueza no Mundo.

Nos últimos anos o descontentamento agravou-se. Uma pesquisa de 2020 apontou 57% das pessoas entrevistadas em todo o Mundo apontaram que “o capitalismo como existe hoje faz mais mal do que bem ao planeta”.

O caminho exato que o capitalismo tomará dependerá de vários fatores, incluindo decisões políticas, desenvolvimentos tecnológicos e mudanças sociais.

É importante notar que estas são apenas previsões e o futuro real pode ser muito diferente.

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