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Ovos Moles de Aveiro, Doçaria com História Secular

Ovos Moles de Aveiro Moliceiro

Os ovos moles de Aveiro não são só um doce conventual que, para quem conhece não resiste a saborear, como têm uma história ímpar que merece conhecer com mais detalhe.

Tempo de leitura: 4 minutes

A gastronomia portuguesa é rica e a doçaria conventual tem uma longa tradição.

Os Ovos Moles com Indicação Geográfica Protegida (IGP)

Há muitos produtos de pastelaria e doçaria que, embora sejam reconhecidos como de uma determinada região, são produzidos em qualquer parte de Portugal. Por exemplo, o Pão de Ló de Alfeizerão, o Pão de Ló de Ovar, os Docinhos do Algarve ou os Pasteis de Tentúgal.

Os Ovos Moles de Aveiro têm a particularidade de só poderem ser produzidos num destes Concelhos: Águeda, Albergaria-a-Velha, Aveiro, Estarreja, Ílhavo, Mira, Murtosa, Oliveira de Frades, Ovar, S. Pedro do Sul, Sever do Vouga, Tondela, Vagos e Vouzela. Os ovos têm de ser frescos e as hóstias devem respeitar os formatos previstos.

Este é o primeiro produto de doçaria conventual certificado na União Europeia e da doçaria portuguesa com a Certificação de Indicação Geográfica Protegida – IGP.

Além da produção ter de ser feita naqueles locais, só podem ser produzidos pelos métodos tradicionais, isto é, não são permitidos mecanismos de produção industrial para poderem ser denominados por Ovos Moles de Aveiro.

Só esta explicação já nos deixa com água na boca.

Mas qual é a forma como são produzidos?

História dos Ovos Moles de Aveiro

Foram os árabes, no século VIII, que plantaram a cana de açúcar na Península Ibérica.

Mas o grande incremento do açúcar, utilizado na doçaria, tem a sua origem na introdução da cana de açúcar na zona atlântica, pelos Portugueses.

Foi precisamente numa das primeiras terras atlânticas, a Ilha da Madeira, descoberta por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira em 1419, que a cana de açúcar foi plantada. O excelente clima associado a um fértil solo vulcânico torna a cana de açúcar muito mais produtiva.

Em 5 de Dezembro de 1452, sob a orientação estratégica do Infante D. Henrique, constrói-se um engenho de água para possibilitar o aumento da capacidade produtiva, ficando o Rei com um terço dessa produção.

A partir daí, uma parte deste açúcar pertencente à Coroa portuguesa, que passou a partilhar com várias Instituições para efeitos medicinais.

Usava-se a clara do ovo para engomar tecidos e as Freiras, para não desperdiçarem as gemas dos ovos, resolveram dar-lhe uma aplicação. Acrescentaram açúcar nascendo, assim, vários tipos de doces.

Reza a lenda que uma Freira do Convento de Jesus, em Aveiro, estando a fazer jejum forçado, não terá resistido e acrescentou às gemas, açúcar e água.

Para não ser descoberta guardou o preparado em massa de hóstias.

No dia seguinte, a iguaria foi descoberta pelas companheiras do Convento que, perante o admirável sabor, consideraram que teria havido um milagre.

Esta forma muito peculiar de fabrico, foi sendo transmitida de geração em geração pelas Freiras e senhoras educadas em Conventos.

A doçaria conventual também servia de remédio para a cura de doenças. O Rei D. Manuel I, em 1502, concede 10 arrobas anuais de açúcar da Madeira ao Convento de Jesus.

No Convento de Jesus esta doçaria era utilizada na botica (farmácia) como medicamento, mas as Freiras também o usavam como suplemento alimentar para muitos doentes com sinais de subnutrição.

Com a extinção das Ordens religiosas em 1834, quando faleceu a última religiosa do Convento de Jesus, a sua empregada, Dª Otília Soares, que conhecia a receita e fazia os ovos moles no Convento, começou a fazê-los em casa, passando a receita para outras mãos.

Nasceram, assim, os Ovos moles de Aveiro e a difusão popular da sua produção.

Mas a tradição mantem-se, quer os ovos quer a produção, têm de ser de Aveiro e a receita tem de ser a original.

Ovos Moles de Aveiro
Ovos Moles de Aveiro

A Receita Original dos Ovos Moles de Aveiro

São necessárias 12 gemas de ovos, 12 colheres de sopa de açúcar e 12 colheres de sopa de água.

Coloca-se o açúcar na água e as gemas são colocadas nesta calda, que vai sempre sendo mexida. Leva-se a lume brando e sempre mexendo até que a mistura fique espessa. É o momento de se retirar do lume e ficar a arrefecer e em repouso durante umas horas.

Pode servir-se dentro de moldes de obreia (hóstias) ou em barricas, como é da tradição. Os motivos mais frequentes incorporados nas hóstias estão ligados ao mar e à Ria de Aveiro, como conchas, búzios ou peixes.

Um dos segredos mais bem guardados está na forma como se incorporam as gemas na calda de água e açúcar, já que deve ser feita reproduzindo fielmente o balanço dos barcos moliceiros na Ria de Aveiro.

E quando se deliciar com estes doces Aveirenses, pense no mar, nos canais da Ria de Aveiro e das gentes simpáticas e cordiais que por lá encontramos.

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